Superintendente do MAPA no Tocantins engavetava investigações e multas

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CPT - Centro de Produções Técnicas

Em um dos processos, fiscais teriam identificado que frigoríficos produziram e venderam farinha de sangue com salmonela

A “Operação Lucas” deflagrada pela Polícia Federal em Palmas (TO) na semana passada, que investiga corrupção na Superintendência do Ministério da Agricultura (Mapa) no Tocantins, aponta que processos administrativos foram engavetados para beneficiar laticínios e frigoríficos. Além disso, fiscalizações que encontraram irregularidades teriam sido julgadas improcedentes pela ex-superintendente do órgão, Adriana Carla Floresta, principal investigada.

A operação foi deflagrada na terça-feira (13) e teve 62 mandados judiciais, sendo 10 prisões temporárias, 16 mandados de condução coercitiva e 36 mandados de busca e apreensão, nos estados de Tocantins, Pará, São Paulo, Pernambuco e Distrito Federal. Dos presos, apenas Adriana segue detida. Ela está há sete dias na Cadeia Feminina de Palmas, visto que teve a prisão temporária prorrogada pela Justiça Federal.

Durante o período investigado, entre 2010 e 2016, a PF descobriu por meio da quebra de sigilo bancário, que houve uma movimentação no valor de R$ 13 milhões em contas ligadas a superintendente e parentes dela. “O que excede a isso é uma movimentação de crédito sem uma origem. Boa parte dessa movimentação não identificada que chega a R$ 8 milhões é uma movimentação de origem de alguns frigoríficos ou pessoas ligadas a frigoríficos e laticínios.

Houve decretação de bloqueio de bens de aproximadamente R$ 2,2 milhões do núcleo familiar da servidora porque até o momento é esse o valor que temos a certeza de que houve a locupletação pelo ilícito”, disse o superintendente da PF Arcelino Vieira.

Os pagamentos, segundo a Polícia federal, eram feitos mensalmente com valores fixos entre R$ 4 e 5 mil. Um dos frigoríficos chegou a fazer 40 depósitos na conta de Adriana Carla. Com o pagamento de propinas, as empresas supostamente conseguiam burlar fiscalizações do Ministério da Agricultura e até anular multas.

Em um dos processos supostamente engavetados por Adriana fiscais teriam identificado que a Cooperfrigu, Cooperativa de Produtores de Carne de Gurupi e, também, o frigorífico Masterboi, em Nova Olinda, produziram e venderam farinha de sangue, um resíduo usado em ração, com a presença de bactérias do tipo salmonela. A bactéria pode causar infecções em animais e humanos. Porém, mesmo com a constatação dos fiscais, a denúncia foi cancelada.

Segundo as investigações, durante fiscalização do laticínio Dois Mil, em Augustinópolis, foi encontrado leite contaminado com salmonela e coliformes fecais. Neste caso, a ex-chefe de fiscalização teria aplicado a multa mínima de R$ 1,5 mil.

Nos documentos apreendidos pela PF está também o caso do laticínio Veneza. Onde fiscais constataram que a empresa produziu queijo mussarela com nitrito, conservante comum na indústria de alimentos, mas proibido para o leite e derivados. Essa denúncia foi julgada improcedente.

O delegado fiscal Heleno Guimarães, funcionário do Ministério da Agricultura no Tocantins, diz que a lei nem sempre era aplicada como se deve no Tocantins. “A chefia não agia quando o problema acontecia, quando os problemas eram detectados”, disse.

Segundo a investigação, na quebra do sigilo bancário de Adriana Floresta foram encontrados R$ 3 mi de origem duvidosa. Algumas das empresas beneficiadas supostamente pagaram as duas faculdades de medicina dos filhos da mulher, inclusive com depósitos em contas de pessoas ligadas à família dela. Além disso, os pagamentos teriam bancado viagens a Rússia e ao Caribe, além de liquidar os custos funerários da mãe de Adriana.

No dia que Adriana Floresta foi presa pela Polícia Federal fazia exatamente um mês que ela tinha sido afastado do cargo de chefia na superintendência do Tocantins. A medida, fez parte de um pacote de medidas do Ministério da Agricultura para combater a corrupção dentro do ministério, após a operação Carne Fraca. O ministério da agricultura determinou auditoria para vários estados, inclusive no Tocantins.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento disse que apoia integralmente a ação da Polícia Federal e vem colaborando com as investigações. Afirmou ainda que todos os servidores envolvidos na ação foram afastados preventivamente por 60 dias e, os que possuem cargos em comissão, exonerados das funções.

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