Agricultora e Queijos
Foto: Felipe Nyland / Agência RBS
CPT - Centro de Produções Técnicas

A determinada agricultora Marta Bolson Camêlo de 43 anos, está resistindo e se “agarrando” em todas as pontas do pequeno cobertor para manter a queijaria Bolson&Camêlo funcionando em Vila Oliva, interior de Caxias do Sul.

Não está sendo uma tarefa fácil. No ano passado precisou investir R$ 50 mil em melhorias e neste ano, já foram R$ 25 mil. Seu dia começa as 5h ordenhando 32 vacas de leite e produzindo 70 quilos de queijo por dia. A jornada só termina depois das 22h.

Ela relatou à reportagem o horror que sente quanto recebe a visita inesperada das fiscais da Secretaria da Agricultura.

— Entro em pânico. Sua arrogância e prepotência são impressionantes. Só vendo para acreditar. Estou em tratamento psicológico e tomando remédio para depressão.

Marta herdou da família o gosto pela produção de queijo. Cresceu no campo, na criação e ordenha das vacas. Também herdou dos pais e avós a força (física e mental) para defender seu negócio.

— Pensei muitas vezes em desistir, mas tenho dois filhos que gostaria permanecessem no campo e dessem continuidade ao trabalho que foi construído durante décadas. Por conta disso, vou continuar insistindo —  conta.

Hoje, as porteiras de sua propriedade permanecem a maior parte do dia fechadas. Os fiscais só entram lá quando o marido, Marcelo, está em casa.

— Elas impõem tanto medo que começo a tremer e não consigo parar. Elas humilham e dizem que nada está certo. Não orientam, simplesmente cobram e dizem que o trabalho delas é aplicar a lei. Não sou contra a lei, sou contra a forma como ela é aplicada. Eu só quero que me deixem trabalhar em paz e sustentar minha família.

Ela entregou à reportagem uma carta (leia trechos abaixo) em que faz o um desabafo sobre a atual situação das agroindústrias de Caxias.

— Enquanto escrevo, desabafo.

O desabafo da agricultora

Gostaria de entender de que maneira uma pequena agroindústria pode suportar a pressão que é simplesmente punitiva e nunca orientadora. Uma pequena fábrica que, até 2016, podia comercializar seus produtos normalmente, sente-se obrigada a encerrar suas atividades e, como consequência, esta mesma empresa continua produzindo, mas de forma ilegal, pois não resta outra alternativa a esta família. Até que ponto estão errados em produzir de forma clandestina se não lhes foi disponibilizado apoio de maneira humana e positiva evitando punições radicais? Eu não os culpo.

No entanto, as que tentam permanecer legalizadas enfrentam dificuldades não apenas logísticas, mas também psicológicas. Os agricultores vivenciam o desânimo devido ao alto custo investido para suprir as exigências com base nas mudanças ocorridas na aplicação da lei municipal. Com isso, tem que elevar os preços e perdem a competitividade. 

Quando as pessoas que regem a agricultura caxiense são questionadas a respeito dos produtos comercializados de forma ilegal, argumentam que o consumidor se preocupa com a qualidade e não com o preço. Diante da atual crise que o povo vivencia, tenho convicção de que procuram, sim, pelos produtos mais baratos.

Onde está a preocupação?

Por que um órgão como a Secretaria da Agricultura pode fiscalizar, punir e encerrar a produção de pequenas empresas que estavam no mercado há mais de 15 anos? Será que sempre trabalharam de forma errada? E mais, eles sabem que estes produtos vão continuar chegando à mesa dos consumidores. Isso é se preocupar com a saúde pública?

Com tantos servidores nesta pasta (da Agricultura) não é possível desenvolver estudos e ações voltados para o fomento, orientação e incentivo? A secretaria precisa dar suporte técnico de forma cabível à realidade dos agricultores. A melhor maneira de superar estes desafios é por meio do diálogo. Fazer com que o agricultor perceba que seu produto tem valor.

Tenho certeza que os produtores gostariam de poder legalizar suas produções e produzirem de forma legal, mas de que maneira se os órgãos competentes não levam em consideração o conhecimento desses agricultores. Aderir ao Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI)para quê, se somente as grandes empresas vão permanecer com o monopólio do comércio?

A equipe gestora não está despreparada. Ela (equipe) é culpada pelo fechamento destas empresas. Sua arrogância, prepotência, intriga e orgulho estão tirando o sustento de muitas família de Caxias.  

Marta Bolson Camêlo
Proprietária da agroindústria Bolson & Camêlo

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